Do profissional à várzea: por que o futebol amador virou refúgio para jogadores
- Kayo Henrique
- há 4 horas
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Pagamento em dia, prazer em campo e menos pressão explicam a migração de atletas para fora do circuito tradicional

Pressão constante, compromisso com treinos intensos e jogos em calendários rígidos. A rotina do atleta profissional exige dedicação integral, física e psicológica. No entanto, nem sempre todo esse esforço é recompensado de forma justa no aspecto financeiro.
No Brasil, apenas cerca de 1,5% dos atletas conseguem se tornar profissionais. Dados do artigo “Jogadores de Futebol no Brasil”, coordenado pelos professores Dr. Antonio Jorge Gonçalves Soares e Leonardo Bernardes Silva De Melo, apontam que a formação de um jogador leva, em média, entre 5.000 e 6.000 horas de trabalho árduo.
Apesar da busca incessante e do sonho alimentado por milhares de crianças, os números escancaram uma realidade dura e, muitas vezes, inalcançável. E, quando o objetivo é finalmente atingido, o atleta ainda pode se deparar com clubes sem estrutura financeira, salários atrasados e pouca estabilidade — ponto central desta discussão.
Diante desse cenário, a pergunta se impõe: o que essa realidade revela sobre o futebol brasileiro? Afinal, se ser jogador de futebol ainda é visto como sinônimo de prosperidade, por que tantos atletas, mesmo após alcançar o profissionalismo, têm optado nos últimos anos por retornar à várzea?
Centralizando a discussão para o estado de Mato Grosso, há exemplos práticos de atletas que optaram por esse caminho. Um deles é Deivisson “Pikachu”, com passagens por Atlético-MT, Dom Bosco, Ação, União, Mixto, Operário VG e Várzea Grande (antigo Operário LTDA). Atualmente, o atacante defende o Amigos WT, equipe de futebol amador de Cuiabá.
Em entrevista exclusiva ao Olhar Esportivo, Deivisson explicou que a decisão foi motivada pela conclusão dos estudos e destacou o compromisso financeiro apresentado pelos clubes do futebol amador.
“Deixei um pouco de lado o futebol profissional principalmente no ano passado. Fiz isso pensando em estudar e concluir minha faculdade. Quando estava no profissional, não conseguia conciliar as duas coisas. Quanto à opção pelo WT, levei em consideração o profissionalismo. Apesar do nome ‘amador’, a estrutura é praticamente de um time semiprofissional: treinamentos diários, na academia e em campo, além de salários mensais e outros benefícios”, relatou.
O atacante também ressaltou a ascensão do futebol amador na capital mato-grossense.
“O futebol amador da Baixada Cuiabana tem crescido e evoluído muito. Hoje, há treinos diários, salários em dia, bonificações e até suplementação — fatores que, ao meu ver, são a base para que um atleta consiga desempenhar bem o seu papel”, concluiu.
O movimento de atletas como Pikachu não é isolado. Recentemente, o goleiro Elias Lara, contratado pelo União e com passagens pelo futebol profissional, também reforçou a discussão ao deixar o Colorado — clube que disputará a Série D do Campeonato Brasileiro em 2026 — para atuar no futebol amador. Procurado pela reportagem, o arqueiro não quis se manifestar.
Casos como esses ajudam a compreender um fenômeno que vai além de decisões individuais. Em Mato Grosso, a migração destes jogadores para a várzea escancara fragilidades estruturais do futebol profissional, especialmente fora das grandes divisões, e levanta um alerta: quando o amador passa a oferecer mais previsibilidade e dignidade, o problema não está na escolha do atleta, mas no sistema que deixou de cumprir seu papel.














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