Histórias de Futebol Americano I
A série Histórias de Futebol Americano disponibilizará entrevistas que contarão a vida dos “loucos” pelo esporte, descrevendo os feitos realizados por brasileiros que amam esta modalidade. As biografias poderão variar entre aventuras, dramas, cult, terror, romances ou comédias. Todas serão relatadas e é claro com a ajuda de vocês, basta que enviem sugestões no e-mail juniorsoaresmartins@gmail.com e uma a uma serão divulgadas.
A primeira edição traz a história do Fullback Jordan Matheus Vieira Moreira, atleta do Coritiba Crocodiles. O jovem possui 20 anos (21/12/1990), usa a camiseta #41 e tem 105 kg com 1,82 de altura. Também é conhecido por Maria Bethania ou Sabugo.
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Como descobriu sobre o futebol americano no Brasil?
“Em 2008, após assistir um documentário sobre crocodilos na Discovery Channel, fiquei curioso e fui procurar mais informações na internet. Foi então que achei o site do Barigui Crocodiles”.
Quando começou a jogar o esporte?
“Sou de Fortaleza, comecei a jogar em março ou abril de 2009, quando um amigo chamou para participar do Ceará Artífices. Joguei com eles até ir para o Crocodiles”.
Qual a profissão dos teus pais?
“Meu pai é corretor de seguros e minha mãe trabalha fazendo eventos”.
Porque resolveu mudar de Fortaleza (CE) para Curitiba (PR)?
“Mudei para ir jogar no Coritiba Crocodiles, no dia sete de março. Porque o futebol americano no Ceará não é muito desenvolvido”.
Você decidiu ir para Curitiba jogar FA sem qualquer convite do Coritiba e sem conhecer ninguém?
“Conheci o Gerard em uma comunidade do Oakland Raiders, então perguntei como faria para entrar no time. Concordamos que eu poderia fazer um try out fora de época porque já jogava. Fui lá e apesar de nunca ter jogado full pads passei no teste”.
Como era tua vida em Fortaleza?
“Eu tinha acabado de passar na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas não me matriculei porque sabia que iria para o Paraná”.
Quando contou para teus pais que havia decidido ir para Curitiba jogar FA?
“Cerca de um mês antes de embarcar. Eles não gostaram nem um pouco, falaram que eu era louco. Que tinha uma vaga garantida na federal e que estava sendo burro”.
E o restante da família achou o que?
“Tenho um irmão de 19 anos. Ele disse que eu não conseguiria entrar no Croco, mas não desanimei”.
Como toda família desaprovava tua decisão, como fez para conseguir dinheiro para manter-se em Curitiba?
“Eu combinei com um amigo que jogava no Artífices e que iria mudar para Curitiba, que eu moraria na casa dele. Dai meus pais foram visitar a mãe dele, isso lá em fortaleza. Ela foi um doce e falou que iria cuidar de mim como um filho. O que aconteceu foi que depois de uma semana na casa deles já em Curitiba, a mãe dele me expulsou porque não aceitava o fato de eu ser ateu e ter tatuagens. Dai fiquei quatro dias na rua, meus pais nem sabem disso”.
Como te contaram que você não poderia mais ficar na casa?
“A mãe do meu amigo, ela disse que na casa dela só morava quem é de Deus. Eu não bebo, não fumo, não uso drogas e nem gosto de festa. Sou menos pecador do que muito religioso”.
O que você pensou quando teve que sair da casa?
“Quando me vi sem ter onde dormir, ou o que comer chorei”.
Como foram esses dias?
“Foi foda! Acordar e não ter para onde ir, onde escovar os dentes, beber água. Fiquei sem comer e dormi nuns bancos de um condomínio. Quem me salvou foi uma pessoa que havia conhecido quando ainda morava na casa desse amigo de Fortaleza. Ela me viu e disse que o filho dela que tem minha idade havia se mudado e que eu poderia ficar no quarto dele. Morei cerca de dois meses de favor com ela e o filho mais novo dela (9 anos). Não foi uma experiência agradável, não recomendo para ninguém morar de favor. Mas sempre serei grato a ela. Hoje em dia ela nem fala mais com a mãe desse meu amigo, por causa do que ela fez comigo”.
Você já estava treinando com o Croco enquanto tudo isso acontecia?
“Sim! A primeira coisa que fiz quando cheguei em Curitiba foi entrar para o time”
Durante esse tempo que aconteciam essas coisas você contou para alguém do Croco?
“Na verdade fiquei com medo de contar. Porque não queria que eles pensassem que estava me fazendo de coitadinho. Depois quando passou tudo contei para uns amigos mais próximos”.
E agora como você está?
“Consegui um emprego de atendente de Call Center, no setor HD dados bilíngue de uma empresa. Estou morando em um pensionato no Capão Raso. Meu pai ajuda com um pouco de dinheiro, mas nem sempre da pra comer. Não tem onde cozinhar ou lavar roupa”.
Porque não foi agradável morar de favor?
“Achei que estavam se aproveitando de mim. Pagava tudo que consumia e arrumava a casa todo dia (concordo), mas quando o filho de nove anos dela chegava bagunçava tudo. Então ela reclamava e queria que arrumasse novamente. E era isso todo dia, o menino bagunçando. Mas gosto muito dele. Um dia ele até me ligou chorando e manda mensagem perguntando quando vou lá jogar vídeo game com ele”.
Está fazendo alguma preparação física para jogar? E os treinos?
“Nenhuma, ainda não deu para voltar a malhar. Não estou nem me alimentando direito, mas compenso com muita garra e esforço nos treinos. Ainda sou novato no time e tenho um longo caminho para aprender. Eu não me deixo abater. Como sou novato muitas vezes tenho que tirar o equipamento do campo após os treinos. Lembro um dia que fiquei tomando chuva para tirar as faixas do campo. Foi o maior frio que senti na vida, estava só de calção e camiseta. Ainda não deu para comprar roupa de frio”.
E a tua comunicação com teus pais como está?
“Meu pai liga as vezes para saber como as coisas estão”.
E tua mãe?
“Estou preocupado, ela falou que ia fazer uma cirurgia séria e estava chorando e com medo. Muitas vezes me sinto muito sozinho, mas faço pelo time. Poderia estar tendo uma vida bem mais confortável em Fortaleza”.
Você já participou de algum jogo do Crocodiles?
“Sim! Joguei um pouco contra o Phantoms. Joguei apenas um drive. Consegui um bom bloqueio e uma corrida de duas ou três jardas. A partida foi 32 a zero para o Croco”.
O futebol americano é tudo aquilo que você pensava quando decidiu ir para Curitiba?
“É melhor do que eu imaginava. (risada)”.
E como está tua vida social em Curitiba?
“Os amigos são do time e outros do trabalho. Saio pouco e acabo indo mais nos churrascos ou eventos do time. E namorada está difícil, pois sou tímido e as meninas não ajudam”.
Vai continuar vivendo em Curitiba?
“É o que pretendo. Se as coisas não derem certo por aqui dou um jeito de ir para outra cidade e arranjo outro time para jogar. Abandonar o football jamais”.
Acha que está dando certo?
“Diria que as coisas estão caminhando e evoluindo”.
Pretende voltar a estudar?
“Sim! Não quero ficar estagnado. O difícil vai ser arranjar tempo para estudar, trabalhar e malhar. Mas dou um jeito, o pior já passou”.
Tem alguém do time que gostaria de agradecer por algo?
“Estes são os que mais me ajudaram. Toddy, Brutus, Xandão, Bado, Márcio, Adan, Gerard, Pucca, Gutz, Schultz. Se esqueci alguém peço desculpa”.
Considerações finais?
“Aprendi que não devemos deixar ninguém nos desanimar e nos por para baixo. E que a família é a melhor amiga”.














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